Iracema 236ml

 

A Iracema selvática é uma breve passagem literatura brasileira adentro rumo à cena viva, palavra virada carne, corpo, vídeo, cabelo e pêlos, breve e irônica como o são os seres humanos, trançados por dentro que são de deleites, demandas, ordenanças e amor. A imagem da índia brasileira é suscitada pelo amor do exótico, a cor local de um Brasil que mal nasce e já vai morrendo, de doença, de escassez, de falta de educação, de ser roubado, sugado, crackeado, de falta de amor, mal fodido e mal pago.

 

A vida urbana se desenvolve, restam os vestígios da dominação medieval, restam, crispados, as sombras e o pó dos ossos de José de Alencar, de Artaud, um pouco de Brecht, resta-nos tremer a pele, dançar na poeira das dunas, sorrir no olho do apocalipse, resta-nos um tanto do Oswald, já que só a antropofagia nos une, resta nos alimentarmos do estrangeiro sempre ingrato, levá-lo goela abaixo, resta-nos entregar o corpo, seios, bunda e todos os orifícios, resta-nos o imóvel de carne de Deus para vender e sulcar.

 

A tabajara Iracema transubstanciada em crime tecnológico, a vingança em Technicolor, um livro aberto em filme, um filme novela teatral em HD, tridimensional e sudorento, uma obra que une o filme aos músculos tensionados. A bondade do índio, sua natural inocência, sua vida despida de problemas podem muito bem ter na mesma raiz o costume de comer a cara de seus semelhantes, como em algumas tribos. A bondade da mãe humana é o drama escapista, o amor é sempre trágico, o brasileiro utópico. A tempestade e o ímpeto vem da mesma força, o espírito do tempo que a tudo destrói.

 

O Brasil é mestiço. Nem branco, nem negro, nem indígena, nem ênfase, nem mau gosto: amálgama dramático das raças que sorri enquanto estupra ou é estuprado. Nossa Iracema é o perfil da mulher ideal, quase Amélia, é a alegoria do sertão nordestino, o litoral cearense, o pampa gaúcho, a zona rural, a cidade e a sociedade burguesa crescente, tudo isso feito em abril de 2014, na fria cidade de Curitiba, no Paraná, terra dos tupi-guaranis, caingangues e botocudos, com seus cestos e suas taquaras, sua canjica e sua paçoca.

 

Amassados, cada vez mais, os índios, amassado, cada vez mais, o humano, amassado, cada vez mais, o amor que arde as entranhas, esse amor que nasce e morre numa mesma frase dentro desse teatro selvagem.

 

Leonarda Glück

Ficha Técnica

Texto e direção: Leonarda Glück

Elenco: Patricia Cipriano, Stéfano Belo, Ricardo Nolasco, Mari Paula, Simone Magalhães  e Manolo Kottwitz

Direção de movimento: Gabriel Machado

Trilha Sonora Original e Sonoplastia: Jo Mistinguett

Guitarra e contrabaixo: Akio Garmatter

Figurino: Gui Ossani

Cenografia: Danilo Barros (Modular Dreams) 

Vídeos: Tamíris Spinelli e Danilo Barros

Iluminação: Trio

Desenho de Luz: Wagner Corrêa

Operação de Luz: Semy Monastier

Voz em off: Límerson Morales

Produção: Gabriel Machado

Designer Gráfico: Rafael Bagatelli

Realização: Selvática Ações Artísticas

Histórico
  • Espetáculo Realizado através do Edital Teatro Novelas Curitibanas Temporada 2013/2014, da Fundação Cultural de Curitiba. Maio e Abril de 2014, Teatro Novelas Curitibanas, Curitiba, Paraná, Brasil. 

  • Circulação Nacional através do Prêmio Funarte de Teatro Myriam Muniz 2014.

  • Gamboavista4, Galpão Gamboa - Rio de Janeiro - RJ. Maio de 2015.

  • Teatro Sesc Senac Iracema - Fortaleza - CE. Julho de 2015.

  • Teatro Cine Glóriah - Curitiba - PR. Setembro de 2015.

  • Funarte SP - Sala Arquimendes Ribeiro - São Paulo - SP. Outubro de 2015.

  • Mostra Sesc Cariri de Culturas - Centro Cultural Banco do Nordeste - Juazeiro do Norte - CE. Novembro de 2015.

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